Ler o rosto: a fisiognomia e os quatro temperamentos

Cor, calor, cabelo, carne, pulso, o jeito do olhar. O médico lia a mistura direto no corpo, e esse atalho foi de Galeno às xilogravuras de della Porta e ao criminoso nato de Lombroso.
Em 1586, um impressor de Nápoles colocou a cabeça de um homem ao lado da cabeça de um boi na mesma página. O mesmo maxilar pesado. O mesmo olho largo e lento. O livro era De humana physiognomonia, de Giambattista della Porta, e a imagem não argumenta nada. Ela mostra o par e espera. O leitor completava sozinho: paciente, obtuso, difícil de irritar, difícil de ensinar. É fácil arquivar essa página como superstição, mas em 1586 aquilo era medicina.
Compleição queria dizer a própria mistura
A palavra entrega o jogo. Compleição vem do latim complexio, um entrançar, e traduzia o grego krasis, a mistura de quente, frio, úmido e seco num corpo vivo. Quando um médico de Pádua dizia que um homem tinha compleição quente e seca, não estava falando das bochechas dele. Estava nomeando a proporção que havia por baixo. Que essa proporção aparecesse também nas bochechas era justamente a parte útil.
Galeno tinha defendido, num tratado curto e muito discutido, que as faculdades da alma seguem as misturas do corpo. A mistura governa a mente, e a mistura se mostra na carne. Tudo o que a fisiognomia prometeu cabe dentro dessa frase. Tire uma das duas metades e a construção desaba. O argumento atravessa Hipócrates e Galeno.
Os sinais à beira do leito
Avicena, no primeiro livro do Cânone da Medicina, dá dez rubricas para julgar uma mistura, nenhuma delas mística, todas coisas que um médico sem instrumento nenhum consegue observar.
- Cor. O rubro lido como sangue, o amarelado como bile amarela, o escurecido como bile negra, uma brancura frouxa como fleuma.
- Calor. A mão pousada no peito: quente e úmido sanguíneo, quente e seco colérico, frio e seco melancólico, frio e úmido fleumático.
- Carne. Cheia e firme, ou magra e dura, ou mole e solta sob o polegar.
- Cabelo. Cabelo espesso, escuro, de entradas precoces era tomado por calor; cabelo fino e ralo, por frio.
- O pulso. Rápido e forte no quente, lento e brando no frio.
- O olho. Vivo e móvel, ou fixo e ardente, ou baixo, ou pesado e úmido.
Nenhum sinal sozinho resolvia nada. Avicena faz questão de que sejam pesados em conjunto, e contra a idade, a terra, a estação e os hábitos do doente. Lida assim, a coisa está mais perto do que os médicos de fato faziam à beira do leito do que de adivinhação. Um atalho, e atalho é o que sobra para quem não tem laboratório.
Do boi à silhueta
A comparação com bichos é bem mais velha que della Porta. A Physiognomica pseudoaristotélica, texto grego saído da escola peripatética, já oferece a semelhança com uma espécie como jeito de ler um homem: o leão para a coragem, o boi para a lentidão, o cervo para o medo. Também generaliza sobre nações inteiras, o que já mostra de onde viria o problema. A contribuição de della Porta foi a xilogravura. Desenhada em vez de descrita, a semelhança deixou de ser uma afirmação que se podia examinar e virou uma coisa que se via e pronto. Repare no que sumiu no caminho. Os humores tinham escapado. O que começou como afirmação sobre uma proporção oculta agora era afirmação sobre uma parecença, e a velha lógica das correspondências exposta em o corpo como um pequeno universo segurava tudo sozinha.
Dois séculos depois, um pastor de Zurique transformou aquilo em febre. Johann Caspar Lavater publicou seus Physiognomische Fragmente em quatro volumes, entre 1775 e 1778. O jovem Goethe ajudou no trabalho e depois tratou de se afastar. Lavater adorava a silhueta, traçada a partir de uma sombra no papel, porque ela deixava só o contorno, que ele tomava por caráter assentado, não por humor passageiro. Lichtenberg, em Göttingen, publicou uma sátira dura contra a moda em 1778 e foi ignorado.
Compassos, criminosos e o pior capítulo
Aí a coisa azedou. Petrus Camper mediu o ângulo facial. Franz Joseph Gall mapeou faculdades mentais nas saliências do crânio. Samuel George Morton encheu crânios de semente e chumbo e publicou Crania Americana em 1839. Em 1876, Cesare Lombroso lançou L'uomo delinquente e entregou à Europa o criminoso nato, marcado de nascença por um maxilar, uma testa, uma orelha, um atavismo que se podia prender à primeira vista. Dali a linha vai direto para a ciência racial.
O quadro humoral já tinha ido embora havia muito. Ninguém media bile, mas o hábito foi herdado inteiro: que um rosto é prova, e que quem o lê é um instrumento neutro.
O rosto nunca confessou nada. Só devolvia o que o leitor trazia consigo.
Continuamos lendo rostos e continuamos errando
As pessoas julgam a competência e a confiabilidade de um desconhecido a partir de uma foto em cerca de um décimo de segundo, os observadores concordam entre si num grau impressionante, e essa concordância não prevê quase nada. Concordar não é acertar. Só quer dizer que compartilhamos os mesmos preconceitos. E ainda há pesquisador alimentando algoritmo com fotos de condenados para anunciar que a criminalidade é visível, o que é Lombroso com hardware melhor.
A posição honesta é estreita. Rostos carregam saúde, idade, cansaço e humor, e isso lemos razoavelmente bem. Não carregam caráter, e nisso continuamos tão ruins quanto Lavater, razão pela qual qualquer relato sério sobre temperamento e os sistemas modernos de tipos começa perguntando à pessoa em vez de olhar para ela. Até o teste daqui é apenas um conjunto de perguntas. Perguntar é a correção que séculos de olhar nunca encontraram.
Descubra seu temperamento
Fazer o teste

