Ervas e os Quatro Humores: Quando as Plantas Tinham Temperatura

Na farmácia medieval, cada planta era quente, fria, úmida ou seca, e receitada para levar o corpo de volta ao equilíbrio. Veja como isso funcionava, com herbários, mandrágora que gritava e tudo o mais.
Uma xilogravura impressa em Mainz em 1491 mostra um cãozinho puxando uma coleira. A outra ponta está amarrada a uma planta meio arrancada do chão. Um homem se mantém bem afastado, com os dedos enfiados nos ouvidos. A planta é uma mandrágora, e a imagem é um manual de instruções: como arrancar a raiz sem morrer.
Dizia-se que a mandrágora gritava ao ser arrancada da terra, um berro que matava ou enlouquecia quem o ouvisse. Por isso, deixava-se o cão fazer o trabalho. E essa página estranha não estava num livro de contos populares. Estava no Hortus Sanitatis, o Jardim da Saúde, um dos livros de medicina mais respeitados que se podia ter.
Para entender por quê, é preciso saber como uma farmácia medieval de fato funcionava. Ela se baseava nos quatro humores, e cada planta ali tinha uma temperatura.
Cada planta tinha uma temperatura
O sistema, herdado dos médicos gregos e aprimorado por Galeno no século II, classificava todo o mundo vivo segundo dois pares de qualidades: quente ou frio, úmido ou seco. Uma planta era um pequeno pacote dessas qualidades, e tomá-la ajustava o equilíbrio dos fluidos dentro de você.
Pimenta, gengibre e mostarda eram quentes e secos. Alface, beldroega e a papoula eram frios e úmidos. A arruda era quente, a rosa fresca. Os médicos até graduavam a intensidade, do primeiro ao quarto grau, de modo que uma erva de calor brando ficava no primeiro grau, e a pimenta no terceiro.
A lógica era simples e, dentro de seus próprios termos, bem organizada. Os opostos se corrigem. Um corpo ardendo numa febre quente e colérica era resfriado e umedecido com violeta, água de cevada e alface. Uma queixa fria e lenta, fleumática, toda umidade e peso, era aquecida e secada com gengibre, absinto e pimenta. A farmácia puxava a mesma alavanca que a cozinha, e é por isso que a alimentação e os quatro humores obedeciam exatamente às mesmas regras, e por que como os humores eram tratados antigamente recorria às ervas muito antes de recorrer à lanceta.
Livros de verde
Esse conhecimento vivia nos herbários, alguns dos livros mais belos de sua época.
O mais antigo e mais copiado era o De Materia Medica, escrito em grego por Dioscórides, um médico do exército, no século I. Por mais de mil anos foi a espinha dorsal da farmácia ocidental e islâmica. No fim da Idade Média surgiram herbários impressos que um público mais amplo podia ter em mãos: o alemão Gart der Gesundheit, em Mainz, em 1485, e o mais imponente Hortus Sanitatis em latim, de 1491, repleto de xilogravuras de plantas, animais e pedras.
Um verbete raramente apenas nomeava a planta. Dava a natureza e o grau, dizia qual parte usar e quando colhê-la, e alertava onde ela podia fazer mal. O absinto, quente, seco e amargo, aquecia um estômago frio e expulsava vermes. A rosa, fresca e adstringente, acalmava o calor e a inflamação. Página após página, lê-se como um manual de trabalho, porque era exatamente isso.
A raiz que gritava
Nenhuma planta reuniu mais lendas do que a mandrágora, e dá para entender o motivo. Sua raiz grossa muitas vezes se bifurca em duas pernas, às vezes com um caroço de cabeça e cotos no lugar dos braços, de modo que, arrancada do solo, parece perturbadoramente com um pequeno corpo humano.
As histórias cresceram para combinar com o formato. A mandrágora brotava sob a forca, diziam, das últimas gotas de um enforcado. Seu grito ao ser arrancada era fatal. Por isso os herbários transmitiam um ritual cuidadoso: traçar três círculos ao redor da planta com uma espada, afrouxar a terra, amarrar um cão faminto à raiz e então recuar e chamar o cão ou lhe jogar carne. O cão avança, a raiz se solta e o animal, não o jardineiro, recebe o grito mortal.
Por trás do teatro havia uma planta real e perigosa. A mandrágora pertence à família das solanáceas, com a raiz carregada dos mesmos compostos do meimendro e da beladona. Em termos humorais, era considerada fria em grau elevado, um narcótico. Macerada em vinho, de fato aliviava a dor e trazia o sono, e entrava na esponja soporífera, a spongia somnifera, que um cirurgião podia segurar sob o nariz do paciente antes de operar. Também podia matar. O grito era fábula. O veneno, não.
História, não conselho de herbário
Nada disso é farmacologia, vale dizer com clareza. Não existem humores, então nenhuma erva aquece ou resfria um deles. A alface não abaixa o fogo colérico, porque o fogo colérico, nesse sentido, não existe.
Mas as pessoas que folheavam essas páginas não eram tolas. Elas operavam um sistema coerente, observavam de perto, e muitas de suas plantas faziam algo real: a casca de salgueiro, que classificavam como refrescante, contém o composto por trás da aspirina. O mapa estava errado nos rótulos e muitas vezes era arguto nas observações. E a mandrágora ainda merece seu alerta, não porque grita, mas porque, como vários velhos conhecidos do boticário, ela pode parar um coração em silêncio.
O grito era história. As plantas eram reais, e também o era o cuidado que se tinha com elas.
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