Como os Quatro Humores Já Foram Tratados

Por dois mil anos, um corpo fora de equilíbrio era algo a sangrar, purgar ou administrar com cuidado. Veja como isso era feito de verdade, e por que a medicina abandonou a prática.
O poste vermelho e branco na frente das velhas barbearias é um pequeno monumento à sangria. Vermelho pelo sangue, branco pelas ataduras, e o poste em si pela vara que o paciente segurava para fazer as veias saltarem. Barbeiros faziam mais do que cortar cabelo. Eles abriam veias.
Quando a cura era drenar
Durante quase toda a história da medicina ocidental, se um médico decidia que seus humores tinham saído do equilíbrio, o remédio era retirar aquilo que estava em excesso. O sangue era o mais fácil de alcançar.
A flebotomia consistia em abrir uma veia, geralmente no braço, e deixar escorrer uma quantidade medida para dentro de uma bacia rasa. O raciocínio vinha direto da teoria dos quatro fluidos, e vale a pena ler junto com este texto de onde vieram os humores. Sangue demais era visto como causa de febre e rosto afogueado, então deixava-se sair um pouco. Dentro de sua própria lógica, era perfeitamente coerente.
Onde a veia era difícil de acessar, havia outras ferramentas. A ventosa usava copos de vidro aquecidos aplicados sobre a pele; conforme o ar preso esfriava, ele puxava a carne para cima, e na ventosa úmida pequenos cortes deixavam o sangue escorrer para dentro do copo. Depois havia as sanguessugas. Na França do início do século dezenove, o apetite por elas era tão grande que muitos milhões eram importados em um único ano, e um médico parisiense, Francois Broussais, tratava quase toda queixa cobrindo os pacientes com elas.
As purgas trabalhavam a outra ponta da mesma ideia. Eméticos para expelir por cima, remédios para mover por baixo, outros para suar ou drenar o excesso. A bílis negra, culpada pelo peso e pela melancolia, era expulsa pelos intestinos. O princípio nunca mudava. Encontre o excedente e livre-se dele.
A cura mais silenciosa
A sangria e a purga são o que as pessoas lembram, mas eram a ponta barulhenta da prática. Muito mais vezes o médico prescrevia algo mais suave e bem mais exigente: um regime.
Galeno, atuando em Roma no segundo século, e os médicos que o seguiram organizaram a vida cotidiana nas coisas que uma pessoa podia ajustar. Autores posteriores as chamaram de não naturais: o ar que se respirava, comida e bebida, sono e vigília, exercício e repouso, o que o corpo absorvia e liberava, e os movimentos das emoções. Administre isso conforme sua natureza particular e os humores deveriam se acomodar sozinhos.
Por isso o conselho era pessoal. A um homem quente e seco, de temperamento colérico, podia-se recomendar abandonar a carne vermelha e o vinho, buscar ar fresco e úmido, dormir mais e se irritar menos. Já a um sujeito frio e úmido, de temperamento fleumático, empurrava-se para o exercício, para especiarias que aquecessem e para cômodos secos. O medieval Regime de Salerno pôs boa parte disso em verso para que pudesse ser memorizado, regrinhas ágeis sobre a hora de levantar e o que colocar à mesa.
Esta é a parte que vale a pena olhar com calma. O regime partia do princípio de que seu temperamento era uma disposição duradoura, a natureza com que você nasceu, e ainda assim não uma sentença perpétua. Ele podia ser aquecido, esfriado, conduzido um pouco em direção ao meio. Isso está perto de como as pessoas ainda pensam, a intuição silenciosa de que talvez você possa mudar de fato o seu temperamento nas bordas sem virar outra pessoa.
História, e não conselho
Nada disso era inofensivo. Em dezembro de 1799, George Washington acordou com uma infecção violenta na garganta, e ao longo de um único dia seus médicos drenaram uma grande quantidade de seu sangue. Ele morreu naquela noite. Se a sangria o matou ou apenas não conseguiu salvá-lo, o certo é que não ajudou.
Parte do que mantinha a prática viva era o quanto ela era difícil de contestar por dentro. Se o paciente se recuperava, o tratamento estava justificado. Se não, o desequilíbrio simplesmente já tinha ido longe demais para ser corrigido. Só no século dezenove, quando os médicos começaram a contar resultados em vez de confiar na lógica, é que a sangria passou a parecer o que era.
A medicina moderna deixou os humores para trás por boas razões, e nada do que está acima é uma sugestão. O estranho é que algumas dessas ferramentas sobreviveram inteiramente à teoria. Cirurgiões ainda usam sanguessugas medicinais para aliviar o sangue congestionado em dedos reimplantados e retalhos de pele. Médicos ainda retiram sangue em quantidades cuidadosas para condições reais, como a sobrecarga de ferro. Os instrumentos sobreviveram; o raciocínio é completamente diferente.
Tire a biologia e algo mais antigo permanece, o mesmo instinto que corria por baixo de toda aquela drenagem e dieta. A natureza de uma pessoa não era um peso fixo a carregar, mas algo que se podia cuidar. Os médicos estavam errados sobre os fluidos. Sobre os temperamentos, eles estavam no caminho de alguma coisa.
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