A Anatomia da Melancolia: as mil páginas de bile negra de Burton

Robert Burton passou trinta anos escrevendo mil páginas sobre a própria bile negra e disse com todas as letras que escrevia sobre melancolia para se manter ocupado e assim escapar dela. É o maior livro produzido dentro do sistema humoral.
Na catedral de Christ Church, em Oxford, há um monumento com o busto pintado de um homem em traje acadêmico e um horóscopo esculpido acima da cabeça. O latim embaixo diz que ali jaz Demócrito Júnior, conhecido de poucos, desconhecido de menos ainda, a quem a Melancolia deu vida e morte. O homem era Robert Burton, bibliotecário de faculdade e clérigo, morto em janeiro de 1640. Costuma-se atribuir o epitáfio a ele mesmo. Passara cerca de trinta anos num único livro sobre o humor que acreditava estar agindo nele por dentro.
O livro que não parava de crescer
A Anatomia da Melancolia saiu em Oxford em 1621, assinada por Demócrito Júnior, com uma folha de rosto que prometia todos os tipos, causas, sintomas, prognósticos e diversas curas do mal. Aquela primeira edição já era um in-quarto grosso, de umas novecentas páginas. Burton a ampliou em 1624, de novo em 1628, de novo em 1632 e de novo em 1638. Uma sexta edição veio em 1651, depois da morte dele, composta a partir do exemplar que ele seguira anotando até o fim. A essa altura a coisa beirava o meio milhão de palavras.
Ele não revisava, propriamente. Acumulava. Tudo o que lia entrava: Galeno e os médicos árabes, Hipócrates, Sêneca, os padres da Igreja, poetas, viajantes, fofoca. O latim fica ali, sem tradução, ao lado do inglês simples. As digressões engolem capítulos inteiros. O livro é uma cabeça se esvaziando no papel durante três décadas e se recusando a parar, e a recusa é justamente o ponto.
O que a palavra queria dizer em 1621
Burton herdou um sistema que já era antigo quando chegou às mãos dele, e não questionou a moldura. Melancolia era bile negra, fria e seca, o humor da terra e do outono, aquele que engrossava, assentava e deixava o sujeito pesado. A história dos quatro humores tinha passado essa ideia por mãos gregas, romanas, árabes e medievais mais ou menos intacta, e Burton é o herdeiro inglês tardio e descomunal dela. A definição de trabalho ele tirou da tradição: uma espécie de desvario sem febre, tendo por companheiros habituais o medo e a tristeza, sem causa aparente.
Medo e tristeza sem causa. É uma boa frase, e ainda se reconhece nela alguma coisa. Mas repare no resto do peso que a palavra carregava. Sob melancolia Burton arquiva o que hoje chamaríamos de ansiedade, obsessão, hipocondria, insônia, mal de amor e desespero religioso, e também a inclinação estudiosa e comum do temperamento melancólico, que a tradição aristotélica havia muito associava a talento fora do comum. Uma só palavra fazia o serviço de uma doença, de um estado de espírito, de um defeito e de um dom.
Ocupado para não adoecer
O prefácio, Demócrito Júnior ao Leitor, tem cerca de cem páginas por conta própria, e traz a confissão mais citada do livro.
Escrevo sobre melancolia, mantendo-me ocupado para evitar a melancolia.
Ele não tem vergonha nenhuma disso. Diz que escreve porque, do contrário, ficaria ocioso, e a ociosidade era, no diagnóstico dele mesmo, o que deixava a bile assentar. A segunda partição então expõe as curas da época, todo o aparato padrão de como os quatro humores eram tratados:
- corrigir o ar, o sono, a dieta
- exercício, viagem, música, companhia alegre
- purgas, sangrias e uma longa lista de simples
- estudo, mas não demais
E no fim de tudo, depois de tudo, vem o conselho para o qual ele vinha escrevendo o tempo todo: não fique só, não fique ocioso. Mil páginas que são elas mesmas um ato de não ficar ocioso, encerrando com a ordem de não ficar ocioso. Leitores posteriores notaram a piada, e notaram também que não era piada. Samuel Johnson, que conhecia o terreno, disse que era o único livro que o tirou da cama duas horas antes do que queria levantar. Keats leu e saiu de lá com Lamia.
Onde deixa de ser livro de medicina
A terceira partição trata da melancolia amorosa e da melancolia religiosa, e aqui Burton faz algo que as fontes dele não faziam. Trata o desespero, inclusive o que chega embrulhado em escritura e autoacusação, como uma condição que um médico poderia razoavelmente enfrentar, e não apenas um pecado a ser repreendido. Escreve sobre a vergonha da coisa, a falta de sono, o pavor ao acordar, a incapacidade de dizer o que há de errado quando alguém pergunta. Não bajula quem sofre e não consola. Faz companhia.
Cuidado com a palavra depressão
Dá vontade de chamar a Anatomia de primeiro livro sobre depressão, e vale resistir um pouco à tentação. As descrições se sobrepõem. As explicações, não. Burton dá conta da mesma tarde ruim pela bile negra, pelos astros, pela carne estragada, pelo luto e pelo demônio, e não vê conflito algum em sustentar tudo isso ao mesmo tempo. Um diagnóstico moderno é um conjunto definido de sintomas ao longo de um período definido, alcançado por critérios, e não afirma nada sobre terra nem sobre outono. Ler um dentro do outro achata os dois, mais ou menos como transpor os velhos temperamentos para os tipos de personalidade modernos perde o que cada um foi feito para fazer.
O que atravessa o tempo é a atenção. Burton olhou de frente para as próprias piores horas durante trinta anos e anotou o que via, dentro de um sistema que desde então foi desmontado, em palavras que ainda acertam o alvo. O sistema estava errado. O olhar, não.
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