História

Como a medicina humoral acabou, e o quanto isso demorou

15 de julho de 2026 · 5 min de leitura

A página inicial de "Sobre a Utilidade das Partes do Corpo Humano", de Galeno, em uma edição latina renascentista, com o título disposto sob uma borda xilográfica de peixes, conchas e caranguejos.
A página inicial de "Sobre a Utilidade das Partes do Corpo Humano", de Galeno, em uma edição latina renascentista, com o título disposto sob uma borda xilográfica de peixes, conchas e caranguejos.

Em 1543 Vesalius não achou a anatomia de Galeno num corpo humano, e em 1628 Harvey mostrou que o sangue circula. Os médicos continuaram sangrando pacientes por mais duzentos anos, e o motivo é a parte interessante.

Andreas Vesalius tinha vinte e oito anos quando seu De humani corporis fabrica foi impresso na Basileia, em 1543. O estranho é que ele mesmo tinha feito os cortes. Na anatomia antiga, o professor lia Galeno em voz alta de uma cátedra enquanto um barbeiro cirurgião abria o corpo lá embaixo; se os dois discordassem, o esquisito era o corpo. Vesalius ficou junto à mesa, e vivia encontrando estruturas descritas por Galeno que simplesmente não estavam ali.

O livro que não batia com o corpo

O caso mais claro é a rete mirabile, uma malha de vasos na base do cérebro onde Galeno situava um refinamento decisivo dos espíritos. Vesalius não conseguiu encontrá-la num ser humano. Ela existe em bois e ovelhas, que era onde Galeno andava olhando; dissecar corpos humanos não era coisa que estivesse ao seu alcance na Roma do século II. Na edição revista de 1555, ele também admitiu que não achava os poros que supostamente deixavam o sangue atravessar a parede entre os ventrículos.

Aquilo devia ter sido fatal. Não foi. Galeno tinha erguido algo tão grande e tão coerente por dentro que algumas peças faltando passavam por erros de detalhe. O sistema aparece inteiro em Hipócrates, Galeno e os quatro temperamentos, e foi ampliado com muito cuidado por Avicena. Corrigir a planta de um prédio não é a mesma coisa que condená-lo.

Harvey desmonta o encanamento

O De Motu Cordis, de William Harvey, saiu em 1628, e seu argumento central era aritmética. Ele estimou quanto sangue o coração lança a cada batida, multiplicou pelas batidas de meia hora e chegou a uma quantidade muito maior do que qualquer pessoa conseguiria comer nesse tempo. Logo, o sangue não é fabricado do zero no fígado a partir do alimento e gasto nas extremidades do corpo. Ele dá a volta e retorna.

Isso desmontou em silêncio o encanamento de que a teoria humoral precisava. Se o sangue não é continuamente feito e consumido, não pode se acumular como um excesso à espera de ser retirado. Harvey sangrou seus pacientes assim mesmo e não achava que tivesse encerrado nada. De certa forma tinha encerrado, e ninguém percebeu por dois séculos.

Por que o modelo era razoável

É fácil ser arrogante com isso, e é um erro. Pense no que um médico conseguia ver antes do microscópio. Sangue, fleuma e dois tipos de bile saem mesmo de pessoas doentes, e em padrões. Doença do peito no inverno produz fleuma. As pessoas diferem de modo constante no temperamento, e não ao acaso. Uma teoria que amarrava as estações, a comida na mesa, a idade do paciente e o caráter presente na sala num único relato era a melhor leitura disponível de correlações reais. Por isso a longa história dos humores é sobretudo uma história de refinamento, e não de dúvida.

A força também era o defeito. A teoria explicava tudo, e qualquer desfecho podia ser encaixado nela depois, de modo que nada contava contra ela.

A lanceta de Rush, Filadélfia, 1793

Em agosto de 1793 a febre amarela chegou à Filadélfia, então capital. Morreram cerca de cinco mil pessoas numa cidade de cinquenta mil. Benjamin Rush, signatário da Declaração de Independência e o médico mais respeitado da América, ficou, tratou os pobres e trabalhou até muito além da exaustão. Também sangrou seus pacientes com força, purgou-os com calomelano e jalapa, e foi ficando mais convicto do método conforme a epidemia avançava. O jornalista William Cobbett o acusou na imprensa de matar quem tratava. Rush processou por difamação e ganhou.

Rush não era tolo nem charlatão. Era um homem corajoso raciocinando dentro de um arcabouço que absorvia cada morte como um caso trazido tarde demais e cada recuperação como prova. Seus instrumentos também mal tinham mudado: as lancetas e ventosas de como os quatro humores eram tratados seriam familiares a um romano.

Alguém enfim conta

Pierre Charles Alexandre Louis, atuando em hospitais de Paris nos anos 1830, fez o que quase ninguém tinha feito. Ele contou. Seu estudo de 1835 sobre a sangria na pneumonia comparou pacientes sangrados cedo com pacientes sangrados mais tarde e somou quem morria e quando. O benefício que todo mundo sabia estar ali revelou-se pequeno, ambíguo e nada parecido com o que a teoria prometia. Ele chamou aquilo de método numérico, e foi cuidadoso quanto aos limites dos próprios números.

A questão nunca foi que a sangria não fizesse nada. É que por dois mil anos ninguém tinha formulado a pergunta de um jeito capaz de voltar com um não.

O que de fato deu fim nisso

O fim veio de fora. A patologia celular de Rudolf Virchow, em 1858, mudou a doença para dentro das células, e não dos líquidos. Depois Pasteur e Koch deram às doenças causas específicas: este organismo, esta doença, este modo de contrair. Quando se pode nomear o que adoeceu o paciente, o excesso de um humor deixa de explicar qualquer coisa e vira, na melhor das hipóteses, um sintoma. A sangria se apagou em uma geração, menos por ter sido refutada do que porque havia outro lugar onde se apoiar.

O que sobreviveu é a parte observacional, a velha percepção de que as pessoas chegam com disposições reconhecíveis. Essa é uma afirmação diferente da medicina, e a comparação com os modelos modernos de personalidade é onde ela é testada hoje. Se você tem curiosidade de saber onde se encaixa, o teste é um bom ponto de partida, lido como tendência e não como líquido.

A lição não é que os médicos antigos fossem crédulos. É que uma teoria capaz de dar conta de toda observação é quase impossível de matar, e que a pergunta simples, contada em vez de discutida, levou dois mil anos para ser feita.

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