Hildegarda de Bingen e os quatro humores

Uma das poucas mulheres cuja voz científica sobreviveu do século XII, Hildegarda de Bingen escreveu sobre os quatro humores e os ligou à sua própria visão verdejante do corpo, da alma e do mundo.
Nas colinas acima do Reno, perto da cidade de Bingen, uma abadessa beneditina passou seus últimos anos escrevendo sobre o corpo humano. Seu nome era Hildegarda. Nasceu em 1098 na Renânia alemã e, quando morreu em 1179, já havia composto músicas que ainda hoje são executadas, trocado cartas com papas e um imperador, fundado dois conventos e registrado visões que a tornaram famosa por toda a Europa.
Menos conhecido é o fato de que ela também escreveu sobre medicina. Em duas obras, Physica e Causae et Curae, ambas de meados do século XII, ela pôs no papel o que compreendia sobre plantas, pedras, animais, doenças e os quatro humores.
Uma abadessa entre médicos
Hildegarda foi entregue à Igreja ainda menina, criada desde os oito anos, mais ou menos, por uma reclusa chamada Jutta, no mosteiro de Disibodenberg. Cresceu até se tornar a líder das mulheres dali e, por volta de 1150, transferiu sua comunidade para uma nova casa em Rupertsberg, perto de Bingen, fundando depois uma segunda do outro lado do rio, em Eibingen.
Ela nunca foi uma médica de universidade. As mulheres estavam, em grande parte, excluídas das escolas que então surgiam, e seu conhecimento veio, em vez disso, da enfermaria do mosteiro, do jardim de ervas, do cuidado diário dos doentes e dos livros que um convento culto podia guardar.
A estrutura que ela herdou já era antiga. A história de onde os quatro humores começaram pertence aos gregos: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma, cada um quente ou frio, úmido ou seco, com a saúde repousando sobre o equilíbrio entre eles. Hildegarda tomou esse mapa e nele desenhou com a própria mão.
Os humores em suas próprias palavras
Ela manteve os quatro fluidos, mas os descreveu com o próprio vocabulário, e teceu o caráter humano dentro do esquema muito como Galeno havia feito, esboçando quatro tipos de constituição segundo o humor mais forte em cada pessoa. Uma pessoa cheia de sangue era uma coisa, uma pessoa carregada de bile, outra.
Sua versão não se encaixa com precisão nos rótulos arrumados de Sanguíneo, Colérico, Melancólico e Fleumático que os escritores posteriores poliram. Ela descreveu homens e mulheres de formas diferentes, ligou o temperamento a toda a vida do corpo e da alma, e leu a constituição de uma pessoa em sua cor, seus humores, seus apetites, seu sono. Onde um quadro moderno quer quatro caixas bem definidas, ela via matizes.
Boa parte de seus escritos é prática: que erva resfria uma febre, que alimento serve a um estômago pesado, como acalmar uma mente inquieta. É a medicina de uma enfermaria em funcionamento, não de uma sala de aula.
Viriditas, a força verdejante
Sua ideia mais própria não tem nome exato em português. Ela a chamou de viriditas, um verdejar ou verdor, a força viva e úmida que empurra a seiva pelo caule, cora os frutos e mantém o corpo quente e inteiro. Um prado em flor a tinha. Assim como uma pessoa saudável e uma alma em graça. Quando ela se esvaía, instalavam-se a secura e a decadência.
Para Hildegarda, o corpo era uma versão em miniatura do mundo maior, ligado ao girar do ano e à ordem dos céus. É por isso que sua medicina se lê como uma só peça com sua teologia: carne, espírito e cosmo eram um único tecido, verdejando ou murchando juntos. Dá para ouvir um eco disso na ideia mais antiga de que o temperamento percorre as estações e as idades, quente e úmido na juventude, frio e seco rumo ao fim.
Um mundo verdejante e um corpo saudável, em sua visão, eram o mesmo pensamento dito duas vezes.
História, não uma receita
Nada disso é medicina moderna. Já não tratamos uma febre equilibrando a bile, e as ligações que os escritores medievais traçavam entre humores, planetas e caráter pertencem à história, não à clínica. Mas as pessoas que acreditavam nessas coisas não eram tolas. Estavam lendo o corpo com as melhores ferramentas que tinham, e lendo com cuidado.
O que torna Hildegarda rara é que ainda podemos ouvi-la. Quase toda voz que nos chega da ciência do século XII é a de um homem. A dela é a de uma mulher, segura e estranha e inteiramente sua. A Igreja levou muito tempo para dizê-lo com clareza. Só em 2012 ela foi nomeada Doutora da Igreja, mais de oitocentos anos depois de largar a pena acima do Reno.
Descubra seu temperamento
Fazer o teste

