Os temperamentos

Colérico x Melancólico: a resposta em quatro segundos e a de quatro dias

Os dois são secos, e por isso se parecem tanto: firmes, sérios, difíceis de demover. O que separa é o ritmo. Um decide em segundos e defende. O outro decide devagar e não consegue soltar.

Colérico

O ousado e determinado

Quente e seco · Fogo · Bile amarela

determinadodecididoconfiantedireto

Melancólico

O profundo e cuidadoso

Frio e seco · Terra · Bile negra

analíticoprofundolealcuidadoso

Coloque um colérico e um melancólico na mesma sala e dê um problema para eles. Observe por cinco minutos e provavelmente você não vai conseguir distinguir um do outro. Os dois ficam quietos do mesmo jeito. Os dois levam o assunto a sério. Os dois já têm uma opinião formada e não vão abandoná-la só porque alguém franziu a testa. Os dois são, na linguagem antiga, secos, e seco quer dizer que a coisa mantém a forma depois de formada. É por isso que tanta gente faz um teste de temperamento e sai de lá em dúvida sobre qual dos dois é.

A diferença só aparece quando você olha o relógio. Pergunte aos dois o que eles acham. Um responde em quatro segundos. O outro responde em quatro dias, ou em quatro minutos que parecem quatro dias, e a resposta é melhor.

Os dois são secos, e daí começa a confusão

A secura, no esquema clássico, não tem a ver com ser frio ou insensível. Ela descreve como uma reação endurece. Um temperamento seco forma uma posição e essa posição solidifica. Não fica balançando nem tomando o formato do recipiente que a sala oferece.

Então o Colérico e o Melancólico dividem uma família inteira de traços que vivem sendo confundidos. Nenhum dos dois se deixa demover facilmente de uma conclusão. Nenhum precisa que o grupo concorde para acreditar em alguma coisa. Os dois guardam mágoa, embora guardem de jeitos diferentes. Os dois acham conversa fiada vagamente cansativa. Os dois, numa reunião em que todo mundo está sendo simpático, são os que percebem em silêncio que o plano não vai funcionar.

Se o seu único dado é "tenho opiniões fortes e não cedo à pressão social", você descobriu que é seco. Não descobriu qual dos dois você é.

A resposta em quatro segundos e a resposta em quatro dias

Calor é velocidade. O colérico é quente e seco, então a posição se forma rápido e depois endurece. O melancólico é frio e seco, então a posição se forma devagar e endurece exatamente igual.

Repare em como cada um abre uma conversa. O colérico abre pela conclusão. "Isso está errado, vamos fazer assim." O contexto vem depois, se você pedir. O melancólico abre com uma pergunta, geralmente bem específica, e não é conversa fiada. É uma sondagem. Ele quer saber o que exatamente você quis dizer com aquela palavra antes de se comprometer com qualquer coisa.

Decidir segue a mesma divisão. O colérico decide mais ou menos no instante em que a decisão se torna possível, às vezes um pouco antes, e trata a decisão como fechada. Reabrir parece, para ele, andar para trás. O melancólico não decide enquanto houver um caso não examinado, e quase sempre há um caso não examinado. Peça a um melancólico para escolher um notebook e você recebe uma planilha comparativa. Peça a um colérico e você recebe um notebook.

Nenhum dos dois sai de graça. A velocidade do colérico conquista terreno de verdade e custa a terceira opção que ele nunca olhou. O cuidado do melancólico pega aquilo que todo mundo deixou passar e custa a janela em que pegar aquilo ainda importava.

Discordar, e estar errado

Discordar é onde os dois deixam de se parecer por completo.

O colérico discorda em voz alta, na hora, na sua frente. Levanta um pouco o tom, interrompe, diz a versão sem filtro. Dez minutos depois já acabou para ele, e fica genuinamente sem entender por que você ainda está chateado. Ele estava discutindo o plano. Achou que isso estivesse claro.

O melancólico discorda com atraso. Na sala, ele fica imóvel e fala pouquíssimo, o que o colérico lê como concordância. Não é concordância. É o começo de uma longa auditoria particular. A objeção chega três dias depois, inteirinha, com provas, e normalmente está certa e não tem resposta.

Estar errado é mais difícil de assistir. Um colérico errado costuma seguir em frente rápido, às vezes rápido demais, corrigindo a rota sem nunca dizer as palavras. Isso parece arrogância. Muitas vezes é só que ele já gastou a atenção dele no conserto. Um melancólico errado não segue em frente. Ele guarda o erro, examina o erro e arquiva num lugar permanente. Nove meses depois ainda consegue descrever a falha em detalhes, enquanto todo mundo já esqueceu que aconteceu.

Uma semana ruim mostra o mesmo desenho. O colérico fica mais barulhento e mais ocupado, ataca alguma coisa, vira a noite trabalhando, responde mal a quem não merecia, e queima o mau humor no movimento. O melancólico fica mais calado, cancela compromissos, recolhe-se e senta com aquilo até entender por inteiro. O caminho do colérico corre o risco de estragar coisas na saída. O caminho do melancólico corre o risco de nunca sair.

Quando os dois trabalham juntos

A dupla funciona bem e falha de um jeito previsível.

O colérico age antes de a análise terminar, porque a análise nunca termina. O melancólico sente isso como ser ignorado e para de oferecer a análise. O colérico interpreta o silêncio como aval. Aí o projeto bate exatamente no problema que o melancólico enxergou na primeira semana e não repetiu depois de ser cortado na segunda. Agora o melancólico está amargurado e o colérico foi pego de surpresa, e os dois se sentem inteiramente com razão.

Silêncio de melancólico não é concordância, e pressa de colérico não é desprezo.

O ajuste concreto, para o colérico: pare de perguntar "alguma objeção?" no fim da reunião. Essa pergunta não rende nada com um melancólico, que ainda não tem a objeção pronta e não vai improvisar uma sob demanda. Pergunte por escrito, na manhã seguinte, com prazo. Aí você recebe a resposta de verdade.

O ajuste concreto, para o melancólico: sua objeção perde quase todo o valor se chega depois da decisão. Diga a versão incompleta em voz alta enquanto ela ainda está incompleta. Diga "tenho uma preocupação com o fornecedor e ainda não sei formular, me dá até quinta". Um colérico respeita uma preocupação sinalizada com data. Ele não respeita um documento pronto que chega tarde demais para servir.

Quase ninguém é só um dos dois

A maioria das pessoas que lê esta página não está escolhendo entre duas caixas. São misturas, e justamente esses dois se misturam com frequência, porque já dividem metade da natureza. Colérico com veia melancólica é comum: aquele que decide rápido e depois não consegue largar a decisão às duas da manhã. Melancólico com veia colérica também é comum: cuidado, cuidado, cuidado, e de repente uma decisão irreversível.

Se você se reconheceu nas duas metades desta página, essa é a explicação provável, e vale ler o texto sobre misturas antes de cravar um rótulo. Se você quer um ponto de partida aproximado em vez de um veredito, o teste dá um.

O resumo honesto é curto. Os dois mantêm a forma. Um a forma em segundos e a defende. O outro a forma devagar e não consegue soltar. Todo o resto vem daí.

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