Os quatro temperamentos e os hábitos: por que o conselho falha com três de quatro

Quase todo conselho sobre hábitos foi escrito por um temperamento para si mesmo. Veja por que sequências e força de vontade falham com três dos quatro, e a tática que serve a cada natureza.
Na parede de uma cozinha há um calendário de papel com um X vermelho sobre os primeiros nove dias do mês e nada depois. Quem o pendurou pretendia correr toda manhã, comprou o tênis e marcou nove dias. Aí veio uma terça em que a pessoa não correu, a corrente pareceu quebrada, e o calendário virou uma repreensão diária até ser tirado da parede.
Isso não é uma história sobre caráter fraco. É uma história sobre um conselho que não servia para quem o seguiu. Quase todo livro sobre hábitos é escrito por um tipo de pessoa que presume que o leitor tem a mesma natureza: disciplinado, um pouco solitário, movido por força de vontade privada e por uma sequência sem falhas. Para três dos quatro temperamentos, esse é mais ou menos o pior plano possível.
O sanguíneo começa tudo e não termina nada
O sanguíneo ama um sistema novo como uma criança ama um brinquedo novo. O aplicativo, as canetas coloridas, o caderno em folha, a primeira semana impecável. Por uns onze dias é maravilhoso. Depois a novidade se dilui, a rotina vira algo comum, e o comum é a única coisa que um sanguíneo não suporta. Então o caderno vai para a gaveta, e o mês seguinte traz outro caderno.
A força de vontade é a alavanca errada, porque o sanguíneo nunca teve falta de entusiasmo, só de constância. O que funciona são as outras pessoas. Uma corrida vira real quando um amigo está esperando na esquina às sete. Amarre o hábito a uma pessoa e ele empresta o peso dessa pessoa. A sequência que um sanguíneo não mantém por si mesmo, ele mantém para não deixar um amigo na mão.
O colérico consegue forçar, e depois odeia a manutenção
O colérico é o único temperamento que simplesmente decide. Seis da manhã, banho frio, uma hora de trabalho antes de a casa acordar, sustentado por pura força durante três semanas. Aí desmorona, e o desmoronamento surpreende todo mundo, inclusive o próprio colérico.
O problema é que um hábito não vive na semana heroica de abertura. Ele vive no meio entediante, na décima milésima repetição que não parece nada, e o colérico quer resultados e lê esse meio como estagnação. A solução é dar ao ímpeto um alvo que ele respeite. Transforme o hábito em um padrão a defender em vez de uma tarefa chata, mantenha um registro visível, e deixe o instinto competitivo correr contra o número de ontem. Um colérico sustenta quase qualquer coisa quando ela vira algo a vencer. É também por isso que o colérico sob estresse acrescenta mais trabalho em vez de proteger a rotina, o que é exatamente o contrário do que deveria.
O melancólico projeta o sistema perfeito e nunca começa
O melancólico não falha como os outros. Ele falha antes do primeiro dia, lendo todos os métodos, comparando os aplicativos de acompanhamento, planejando a manhã ideal minuto a minuto, esperando que as condições fiquem certas. Uma vez começado, mantém o padrão tão alto que um único dia perdido parece prova de que aquilo tudo não prestava, e ele desiste enojado da própria imperfeição.
O melancólico precisa de permissão para começar mal e de permissão para falhar. A regra útil é a mais antiga: nunca falhe duas vezes. Uma brecha é um acidente. Duas são o começo de um novo padrão. Um hábito não é uma corrente de elos de vidro em que uma quebra estraga tudo. É uma média, e uma média sobrevive a um dia ruim. Baixe o padrão até começar ficar fácil, e deixe o registro ser honesto em vez de perfeito.
O fleumático mantém o hábito bem demais
O fleumático é o natural nesse assunto. Dê a um fleumático uma rotina diária modesta e ele a sustentará por uma década, atravessando humores, clima e toda desculpa que derruba os outros três. A constância é a primeira língua dele.
A armadilha não é desistir. É o conforto. Um fleumático mantém uma rotina medíocre muito depois de ela parar de funcionar, porque mudá-la custa esforço e a versão atual é tranquila o bastante. A caminhada de dez minutos que anos atrás já deveria ter virado um treino de verdade fica dez minutos para sempre. A solução não é mais constância, que ele já tem, mas uma revisão marcada e gentil. A cada estação, faça uma pergunta simples: ainda vale a pena fazer isso do jeito que faço? O dom dele é manter. O que ele precisa acrescentar de propósito é a disposição de mudar aquilo que mantém.
O método nunca foi o ponto
Nada disso quer dizer que um temperamento seja uma parede. Quer dizer que o conselho de sempre foi feito para uma natureza e entregue a todos, e o descompasso, não o leitor, foi o que falhou. Você pode construir o mesmo hábito por quatro caminhos, e o sustenta melhor quando o plano corre a favor da sua fibra, não contra ela. O mesmo vale para o estudo, e é por isso que como cada temperamento aprende fica ao lado deste texto. E se o formato da sua natureza não é fixo, o espaço de manobra dentro dela é real, o que você pode mudar seu temperamento trata por inteiro.
Um hábito não precisa de mais força de vontade do que você tem. Precisa de um desenho que sirva à pessoa que você já é.
Se você não tem certeza de qual dos quatro conduz em você, o teste é um bom lugar para começar. Depois disso é uma questão de escolher a versão que você, em particular, não vai abandonar.
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